
Desde a década de 50, com o aumento da disponibilidade dos bens duráveis e de consumo tem ocorrido a multiplicação de casos de ansiedade. Existem muitas pesquisas que tratam do percentual da população que irão sofrer com a ansiedade. E parece um consenso de que pelo menos 30% das pessoas sofrem ou sofrerão desta patologia. Vamos entender um pouquinho sobre o que é ansiedade.
Ela pode ser classificada em dois grandes grupos, um deles a ansiedade generalizada a qual se manifesta de maneira mais ou menos constante, mantendo o indivíduo quase sempre inquieto e com pensamentos voltados a problemas reais ou imaginados. Importante citar que problemas criados apenas pela imaginação podem parecer irreais e até mesmo tolos para pessoas que estão com saúde mental adequada. Mas isso não ocorre para o ansioso. Os problemas mesmo imaginados parecem ter um fundo de verdade e a sua mente trabalha de forma a distorcer eventos reais como sendo precipitações que algo terrível está prestes a acontecer. Imagine você o sofrimento de viver assim, é algo realmente desagradável e muito limitante.
O segundo grupo de ansiosos são os que sofrem com ansiedade abrupta, incluindo a síndrome do pânico a qual surge de repente e algumas vezes desaparecem assim como surgiram, de repente. Elas são mais ou menos intensas, mas tem o poder de roubar totalmente a atenção do indivíduo, incapacitando-o. É um medo repentino ao qual a mente procura rapidamente uma causa – que geralmente é falsa – para justificar o pico emocional. Por exemplo: acreditar que está tendo um infarto. O próprio medo – o pânico – já é suficiente para acelerar os batimentos cardíacos, provocar tontura, formigamento e aumentar a sudorese. Em última analise a ansiedade é um tipo de medo e insegurança. Um medo do futuro próximo, como o temor de não ir bem em uma prova. O medo de não conseguir pagar as contas, o medo de ser rejeitado por quem se ama. Apenas para citar alguns exemplos. A ansiedade é um mecanismo primitivo que nos auxilia a manter-nos vivos e com saúde, mas em um contexto selvagem.
Agora um pensamento muito relevante que talvez você esteja tendo neste momento sobre os medos básicos é: A maioria dos medos básicos já não cabem mais na sociedade contemporânea. Hoje não temos mais animais selvagens para nos atacar; nossas casas são resistentes ao clima; temos casas climatizadas que nos proporcionam conforto. Temos também fartura de alimentos, nunca houve tamanha disposição e multiplicidade de alimentos a nossa disposição. Bem, isso pelo menos para algumas classes sócias. O Brasil conta com mais de 545.000 médicos que auxilia muito na melhora da saúde da população. Muitos dos riscos comuns da vida foram significativamente reduzidos, como a mortalidade infantil e a varíola. O nosso tempo de vida tem sido cada vez maior. As pessoas tem se aposentado com uma qualidade de saúde que permite viajar, realizar trabalhos voluntários, acampar, pescar e mais um monte de coisas que as levam a ter qualidade de vida após a aposentadoria.
Mesmo com tudo isso o número de casos de ansiedade vem aumentado. Mas e a pobreza não é um motivo para a ansiedade? Pode ser sim com certeza. No entanto reflita comigo. Se voltarmos alguns séculos e analisarmos a vida dos grandes poderosos como D. Pedro I; Abraham Lincoln e os magnatas da revolução industrial como Henry Ford por exemplo, estas pessoas não tinham o conforto de uma família de classe média baixa atual. Eles não tinham TVs, aparelhos de ar condicionado, não havia internet, celulares, aplicativos de todos os tipos e grandes supermercados. Eles andavam a maior parte do tempo em carroças, até que Henry Ford popularizou o seu carro modelo Ford T. Portanto a dificuldade de acesso a bens não é exclusivamente um fator crucial para produzir sofrimento emocional.
Há mais variáveis no quesito ansiedade e qualidade de vida. Podemos refletir sobre as relações sociais que são muito mais tênues e inconcretas, o que o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman chamou de vida liquida. Hoje os relacionamentos ocorrem através da tecnologia como smartphones e computadores, o que propicia o fácil rompimento de qualquer relacionamento que utilize de tecnologia. Isso leva as pessoas a serem transformadas em mercadoria sabendo que no momento em que ela desagradar seu amigo ou parceiro pode sofrer um bloqueio, ser desconectada. Isso deixou as relações superficiais e extremamente voltadas a agradar ao outro, perdendo assim a identidade e definindo-se como um bem de consumo para quem esta do outro lado da tela.
Hoje o divórcio é muito mais comum. Famílias que antes eram coesas e próximas, hoje moram distantes e enfraqueceram os laços dos relacionamentos. O respeito pela moralidade do pai ou avô que sempre dispunha de um conselho sábio para direcionar os membros da família já não existe mais, e estas pessoas passaram a ser mais um estorvo do que um sábio na família.
As comunidades locais se dissiparam, os bairros deram espaço a grandes centros e com isso perdeu-se a identificação e o orgulho de pertencer a uma terra especifica. Estes são apenas alguns exemplos das mudanças modernas e como tem afetado a qualidade de vida. As pessoas sentem-se mais sozinhas e abandonadas a própria sorte, algo que a algumas décadas atrás não ocorria.
Assim a ansiedade continua presente e as soluções para uma melhor qualidade de vida parecem levar a novos contextos que por sua vez produzem ansiedade. O importante é identificar a ansiedade em si, e buscar ajuda aprendendo estratégias de enfrentamento. Obrigado por ler até aqui. Felicidades e muita saúde.

